segunda-feira, 22 de abril de 2013

Estrangeiros com sotaque pernambucano



Recife recebe gente dos quatro cantos do mundo. Cinco estrangeiros, alguns já quase recifenses, contam o que pensam e como tiram proveito da cidade


Guilherme Carréra

Publicação: 16/04/2013 14:11 Atualização: 18/04/2013 10:51

Dentre o 1,5 milhão de pessoas que habitam o Recife, parte dessa população crescente vem de países vizinhos, como a hermana Venezuela, e de outros nem tão próximos assim, como a nórdica Alemanha. São pessoas que aterrissam no Recife para viver o desconhecido. Por amor, por trabalho ou por estudo. Alguns deles, com data para voltar. A maioria, já se sentindo um pouco pernambucano. Todos eles, entre a cidade natal e nova morada, entre os hábitos que trazem consigo e os costumes aos quais precisam se adaptar. Conversamos com eles sobre suas experiências particulares, as diferenças culturais e seus lugares preferidos na Região Metropolitana do Recife.

Amor cinematográfico

A formação em comunicação e a posterior especialização em cinema documentário e direção de fotografia deram a Gustavo Garcia Rojas um olhar apurado. Tanto para os filmes, quanto para a vida que corre fora da tela. Venezuelano de Caracas, com passagem de dois anos por Buenos Aires, na Argentina, pousou no Brasil diretamente no Recife. Por amor. Aos 30 anos, recém-casado com Mykaela Plotkin, que conheceu quando ambos estudavam cinema na Argentina, ele conta que é sempre surpreendido pelos lugares que a esposa o apresenta. “Ela sempre me leva a um lugar novo. E sempre vamos até Aldeia, onde moram meus sogros”.


O venezuelano Gustavo Garcia Rojas na Cidade Alta de Olinda, um de seus lugares preferidos no Grande Recife. Foto: Teresa Maia/DP/D.A Press


Na hora de escolher um lugar favorito, no entanto, nem Recife, nem Aldeia. “Adoro Olinda. Gosto de ir das exposições da Casa do Cachorro Preto aos bares da Cidade Alta...”.Suas andanças pela América Latina lhe conferem autoridade para opinar. “Minha cidade natal é linda, com o mar próximo e uma montanha que cobre toda sua extensão, mas, por outro lado, não posso negar que é uma das mais violentas do mundo”, pondera. Em relação ao Recife, vê similaridades. “O jeito das pessoas se comportarem, a mistura de negros, brancos e indígenas, o clima quente...”. À equação Recife + Caracas, Gustavo incorpora ainda a norte-americana Miami, onde passava férias com frequência. “Além da geografia e da arquitetura, o que ambas têm de lindas, têm de quente”, brinca.

Ah, o calor...

De ascendência grega, a norte-americana Asteropi Aslanidis, 44 anos, nasceu e cresceu em Norwalk, no estado de Connecticut, nos Estados Unidos. E embora o Recife esteja inserido em um contexto sócio-histórico completamente diferente, Asteropi, que havia passado dez meses no Recife e voltou de vez no início deste ano, enxerga o mar como um forte ponto em comum entre ambas as cidades. “Além de serem cercadas pelas praias, eu diria que as duas possuem uma beleza particular, com um circuito interessante de restaurantes, cafés, parques, shoppings, etc”. Ao contrário do que qualquer recifense pode pensar, Asteropi considera as altas temperaturas da capital uma de suas melhores características. “O frio de Norwalk, sim, é uma das piores coisas da vida, porque se estende por metade do ano”.


Asteropi Aslanidis tem origem grega, mas nasceu nos Estados Unidos. Na foto, ela posa no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press


Querendo se especializar em Saúde Holística, Asteropi sentiu uma certa dificuldade ao ir atrás, por exemplo, de produtos que dialoguem com seu estilo de vida. Encontrou na Feira Orgânica da Praça de Casa Forte, na Zona Norte. “Passei a frequentá-la, mesmo sendo aos sábados, às 5h da manhã. É importante pra mim, porque é o que eu promovo e tento pôr em prática”. Arranhando no português, Asteropi conta com a ajuda da companheira, motivo pelo qual veio ao Recife, para se adaptar mais rapidamente. Quando quer matar as saudades de Norwalk, pega um cineminha na Fundação Joaquim Nabuco, no bairro do Derby. “Me lembra uma sala que temos na minha cidade, com uma programação voltada a filmes independentes, estrangeiros e documentários”.

De Wrea Green a Taquaritinga do Norte

John Holtappel, 55 anos, nasceu no vilarejo de Wrea Green, ao norte da Inglaterra. 2 mil habitantes, uma igreja, uma escola e um bar, quer dizer, um pub. “Queria muito ter vivido minha adolescência no Recife. Em Wrea Green, não acontece muita coisa”. Há 14 anos na capital pernambucana, o inglês viu a cidade mudar em muitos aspectos. “Positiva e negativamente”, sublinha. John completa o trio que veio morar no Recife para dar prosseguimento a um relacionamento. Depois de anos em Algarve, Portugal, veio ao Recife em 1999 e nunca mais saiu. A não ser se for para ir a Taquaritinga do Norte, no Agreste pernambucano, onde tem sítio. “Planto café, maracujá, laranja... Sou taquaritinguense de alma!”.


John Holtappel frequenta o Mercado de São José, no Bairro de São José, quase toda semana. Foto: Bernardo Dantas/DP/D.A Press


No Recife, mora no Bairro de São José, centro da cidade, lugar que considera um verdadeiro teatro a céu aberto. Quase recifense, John já recebeu visitas estrangeiras e sabe fazer o papel de um bom cicerone. “Recife é uma cidade de extremos. Gosto de levar os visitantes tanto no Paço Alfândega como no Mercado de São José, pra mostrar um pouco desse contraste numa mesma área da cidade”. Pessoalmente, John curte caminhar e se surpreender com o bairro. “Vou ao mesmo mercado e sempre descubro coisas novas”. Sua dica para quem vem morar no Recife é procurar ler sobre a história da cidade. “Casa-Grande e Senzala, por exemplo, ajuda e muito”. Anotado.

Alemão pernambucano

Assunto constante entre os recifenses, o transporte público é também um dos destaques na fala de Martin Mahn, 46 anos, alemão que vive no Recife desde 1997. Nascido em Berlim e criado em Hamburgo, ele lamenta a falta de opções de transporte para a população local. “Recife deveria se espelhar nas cidades da Escandinávia, que praticamente não tem carros nos centros urbanos. Hoje, um jovem alemão já não acha mais interessante comprar um”.




O alemão Martin Mahn já se considera um pernambucano. Em Boa Viagem, costuma frequentar cafés e restaurantes nos dias de folga. Foto: Arthur de Souza/DP/D.A Press


Martin comenta que Hamburgo é conhecida por ser a Veneza do Norte, sendo, no mínimo, curioso o fato de ele hoje morar na chamada Veneza Brasileira. “Talvez por isso adore passear pelas pontes do Recife Antigo. Consigo ainda sentir um pouco do espírito europeu na cultura local, apesar de tantas outras influências”, conta, lembrando o Conde Alemão Maurício de Nassau, que trabalhou na Companhia das Índias e deixou um legado no Recife, na época, Mauristad. Secretário-executivo do Consulado da Alemanha no Recife e diretor-executivo da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, Martin se sente um recifense. Casado com uma pernambucana, já tem restaurante, café e livraria prediletos. Não passa um fim de semana sem dar um pulo na Praia de Boa Viagem. E, quando tem um tempinho, sobe a serra em direção a Gravatá.

A paisagem de Hendaia

A rotina de estudante de Hendaia Resende não é muito diferente do dia-a-dia dos colegas de classe do curso de administração da Universidade Católica de Pernambuco. Cumpre as atividades acadêmicas, sai com os amigos, curte ficar em casa. São duas as diferenças: a nacionalidade da aluna e a saudade que sente de casa. Hendaia tem 20 anos e vem de Luanda, na Angola. Veio para o Recife estritamente para ter uma experiência universitária diferente. “Antes disso, nunca tinha ouvido falar em Recife”, assume.


A angolana Hendaia Resende está há um ano no Recife. Na foto, ela aproveita a vista da Praia de Boa Viagem. Foto: Roberto Ramos/DP/D.A Press


Morando no bairro do Espinheiro, na Zona Norte, há um ano, se convenceu de que Luanda e Recife nem são tão distantes assim. “O clima, a praia e a culinária me aproximam um pouco de casa”. Hendaia, no entanto, é taxativa em relação ao que mais a incomoda na capital: a criminalidade. Teme a violência, mas isso não a impede de viver o Recife. Longe da Baía de Luanda, local, segundo ela, superfrequentado por turistas, mata a saudade indo passear na Praia de Boa Viagem, cartão-postal do Recife. “É o meu lugar preferido. Adoro a paisagem, o mar azul e o sol radiante”. Não tem como discordar.

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